Empresas na teia do Master usam terras da União para fabricar R$ 45 bi em créditos de carbono.

Duas empresas ligadas ao chamado caso Master, a Golden Green e a Global Carbon, alcançaram juntas uma valorização superior a R$ 45 bilhões com base em supostos “créditos de estoque de carbono” gerados em uma área que, na realidade, pertence à União e é destinada à reforma agrária. Por se tratar de terra pública, esses ativos não poderiam ser explorados economicamente por empresas privadas.

Documentos obtidos pela Folha de São Paulo mostram que ambas as empresas, controladas por fundos administrados pela Reag, investigada pela Polícia Federal, utilizaram como lastro uma área conhecida como Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM). O Incra confirmou que a área é pública, arrecadada nos anos 1980, e afirmou que qualquer comercialização de créditos de carbono baseada nessa terra é irregular, causando prejuízo à União. Segundo o órgão, medidas administrativas e judiciais já estão em curso.

Fundos podem ter sido usados para inflar patrimônio financeiro de empresários - Rafaela Araújo- 29.dez.25/Folhapress

Mesmo sem a regularização fundiária da área — que sequer pôde ser cadastrada nos sistemas oficiais do governo —, auditorias e consultorias renomadas aprovaram sucessivas reavaliações bilionárias dos ativos, sem apontar ressalvas sobre a origem dos créditos. As empresas se basearam em um inventário de carbono feito pela Unesp, que estimou a quantidade de CO₂ existente na floresta, mas isso representa apenas uma estimativa ambiental, não um crédito de carbono negociável no mercado.

Na prática, as empresas contabilizaram como ativo algo que não tem valor de mercado comprovado. Crédito de carbono, de fato, só existe quando há redução comprovada de emissões certificada por programas reconhecidos, o que não é o caso dos chamados “estoques de carbono”. As próprias empresas admitem que usam premissas internas, já que não há transações reais que sustentem os preços atribuídos.

A situação se repete nas duas companhias, inclusive na Global Carbon, que saiu de um capital social de R$ 100 em 2020 para uma avaliação de R$ 31 bilhões em 2024, sempre com base na mesma área pública. Os fundos investidores — Jade e New Jade 2 — são ligados à Reag e aparecem em investigações que apuram suspeitas de lavagem de dinheiro, incluindo vínculos com o PCC.

Auditores e avaliadores econômicos ouvidos pela Folha afirmaram que apenas reproduziram informações fornecidas nos balanços das empresas, mesmo quando não havia auditoria independente, e sustentam que as normas permitem esse tipo de avaliação. Já o Incra reafirma que os negócios são irregulares, enquanto a Global Carbon reconhece que a área é pública e diz estar tentando regularizar a situação. As empresas de auditoria envolvidas afirmam que seus trabalhos se limitaram a análises contábeis ou metodológicas, sem verificar a origem dos ativos.

A cadeia de irresponsabilidades das grandes instituições

O caso revela menos um erro pontual e mais uma cadeia estruturada de irresponsabilidades, na qual grandes instituições cumpriram apenas o mínimo formal, ignorando riscos evidentes e efeitos públicos de suas decisões. Cada elo dessa cadeia contribuiu para transformar terra pública em ativo bilionário fictício.

O primeiro nível dessa irresponsabilidade está nas empresas e fundos estruturadores, que converteram uma simples estimativa de carbono existente em floresta — sem titularidade da terra e sem certificação reconhecida — em “ativo ambiental”. Ao fazê-lo, assumiram conscientemente um modelo que não existe no mercado regulado, apostando que a aparência contábil substituiria a realidade jurídica e ambiental.

O segundo elo envolve consultorias técnicas e avaliadores econômicos, que aceitaram como premissa dados fornecidos pelas próprias empresas, sem verificar a origem fundiária da área ou a natureza jurídica do ativo. Ao alegar que apenas “reproduziram balanços”, esses agentes abdicaram de qualquer dever material de diligência, transformando laudos técnicos em peças meramente cartoriais.

Em seguida aparecem as grandes auditorias, que chancelaram sucessivas valorizações bilionárias sem exigir esclarecimentos sobre a titularidade da terra, a existência de litígios ou a distinção fundamental entre crédito de carbono negociável e simples estoque estimado. Essa omissão não é neutra: ao conferir selo de confiabilidade, legitimou números que induzem investidores, autoridades e o mercado ao erro.

Outro elo crítico está nas estruturas financeiras e fundos de investimento, que aceitaram ativos de natureza altamente questionável como base patrimonial, mesmo operando em um setor — o ambiental — que exige grau máximo de rigor jurídico e técnico. A busca por valorização acelerada parece ter se sobreposto ao dever de cautela, transparência e responsabilidade socioambiental.

Por fim, há uma irresponsabilidade sistêmica, quando instituições se escoram em interpretações formais das normas para justificar avaliações que ignoram a realidade material dos fatos. Legalidade aparente não substitui legitimidade econômica nem responsabilidade pública. Quando todos “cumpriram seu papel”, mas ninguém verificou o essencial, o resultado é um mercado distorcido, vulnerável a fraudes e com alto potencial de dano ao interesse público.

O episódio expõe um problema maior: a financeirização do discurso ambiental sem lastro real, onde floresta pública vira ativo privado no papel, e grandes instituições, em vez de frear o abuso, acabam funcionando como multiplicadoras de risco e desinformação. Não se trata de falha técnica isolada, mas de um modelo que normaliza a negligência quando o lucro é elevado e a fiscalização é lenta.


Fonte: Folha de São Paulo 

texto elaborado em fidelidade pelo ChatGpt.

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