Da Guerra de Canudos aos Morros do Rio de Janeiro: Como soldados brasileiros criaram a primeira favela do país.
A origem das favelas no Brasil está diretamente ligada às contradições sociais e políticas do final do século XIX, em um período marcado por profundas transformações nacionais. A recém-proclamada República ainda buscava consolidar suas estruturas institucionais enquanto o país enfrentava desafios urbanos, desigualdades sociais e a ausência de políticas públicas eficazes de habitação. Nesse contexto, nasceu no Rio de Janeiro aquela que viria a ser reconhecida como a primeira favela brasileira: o Morro da Providência.
A ocupação do local remonta a 1897, quando soldados que haviam participado da Guerra de Canudos retornaram à então capital federal. A campanha militar na Bahia foi uma das mais sangrentas da história do Brasil e mobilizou milhares de combatentes. Ao regressarem, muitos desses homens esperavam receber os soldos atrasados e as moradias que lhes haviam sido prometidas pelo governo. No entanto, a realidade foi outra. Sem recursos, sem apoio institucional e sem um destino definido, esses ex-combatentes se viram abandonados à própria sorte.
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| Ilustração. O termo "Favela", na verdade, é o nome de uma planta resistente e espinhosa típica do sertão nordestino. |
Diante dessa situação, parte deles decidiu ocupar um morro localizado na região central do Rio de Janeiro. Ali construíram moradias improvisadas e deram início a uma comunidade que nasceu da necessidade imediata de sobrevivência. Esse assentamento espontâneo recebeu o nome de “Morro da Favela”, uma referência direta a um morro existente na região de Canudos, onde haviam ocorrido os combates. O termo “favela”, por sua vez, tinha origem na vegetação típica do sertão nordestino: uma planta resistente e espinhosa, símbolo da dureza e da persistência em ambientes hostis.
O surgimento dessa ocupação não foi um fenômeno isolado, mas parte de um processo maior. Na virada do século XIX para o XX, o Rio de Janeiro passava por reformas urbanas que buscavam modernizar a cidade e aproximá-la dos padrões europeus. Cortiços e habitações populares no centro eram frequentemente demolidos, expulsando moradores pobres para áreas periféricas e encostas de morros. Assim, além dos ex-soldados de Canudos, trabalhadores informais, migrantes e famílias sem acesso à moradia formal passaram a ocupar esses espaços, ampliando a comunidade.
Com o tempo, o nome “favela” deixou de designar apenas aquele morro específico e passou a identificar, de forma mais ampla, todas as ocupações irregulares em áreas urbanas, especialmente em encostas. O vocabulário brasileiro incorporou o termo como sinônimo de assentamentos populares marcados pela autoconstrução, pela ausência de infraestrutura básica e pela marginalização social.
O Morro da Providência, portanto, não representa apenas um ponto geográfico. Ele simboliza o encontro de fatores históricos decisivos: o abandono estatal após a Guerra de Canudos, o crescimento urbano desordenado, a exclusão social e a ausência de políticas habitacionais estruturadas. A partir dali, um modelo de ocupação urbana se consolidou e se replicou em diferentes cidades brasileiras ao longo do século XX.
Mais de um século depois, o Morro da Providência continua habitado e permanece como um marco histórico vivo. Sua existência relembra que as favelas não surgiram por acaso, mas como resultado direto de decisões políticas, conflitos sociais e processos de urbanização que deixaram parcelas significativas da população à margem. Ao compreender suas origens, é possível entender também os desafios persistentes das grandes cidades brasileiras e a urgência histórica de enfrentar a questão da moradia com planejamento, inclusão e responsabilidade social.

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